Kannário: Príncipe, agente do bem ou fenômeno? Carnaval fica dividido entre o antes e o depois da passagem do cantor

O momento mais esperado da segunda-feira no circuito mais tradicional da festa, causou espanto pela liderança que, de novo, o cantor mostrou, carregando milhares de foliões

De cima do trio, Igor comandou os foliões que praticamente não tinham espaço para pular, mas se divertiram de forma ordeira na passagem pelo Campo Grande(Foto: Alfredo Filho/Secom)

Ainda esta semana a mídia do Brasil inteiro foi invadida pela notícia do parto da cantora Ivete Sangalo, destacando, com certa dose de ufanismo, o nascimento das gêmeas Helena e Marina. Nada mais do que merecido diante do que a cantora representa para o carnaval do qual deixou de participar pela primeira vez durante os anos em que se consagrou.

Mas a mesma mídia não se deu conta de dar o devido destaque a um verdadeiro fenômeno, que, ainda que inúmeras vezes contestado, tem que ser, no mínimo, avaliado. Falamos de Igor Kannário, que em 2018 pareceu um pouco mais maduro e, talvez por isso, mais ousado e decidido a mostrar para os baianos que ele é, definitivamente, o “Príncipe do Gueto”.

A entrada de Kannário na avenida não teve nenhuma surpesa: foi apoteótica, assim como em 2017. Exagero dizer que 200 mil pessoas ocupavam o espaço, assim como é exagero não reconhecer esse número. Contradição? Ainda que seja, a força do cantor impressiona os que mais o contestam pela forma como encara determinados momentos, especialmente se há qualquer ação policial.

Igor, de novo, foi o cara capaz de parar tudo, de quebrar tudo, de comandar e tudo ao modo dele. Ao entrar na passarela do Campo Grande, Kannário voltou a pedir paz e reafirmou o que sempre diz durante as suas apresentações sobre trios e palcos: “aqui, ninguém briga!”. A favela é de paz. E os seus comandados, espremidos e praticamente sem ter onde pisar, atendem à ordem.

Público incalculável no Campo Grande, durante a passagem de igor Kannário(Foto: Alfredo Filho/Secom)

Em poucos minutos, um grupo de militares entra no meio da “confusão organizada” e, misteriosamente, um “clarão” consegue ser aberto em meio à mutidão. Lá do alto, o cantor pede pra parar! Os músicos, imediatamente, param os instrumentos e ele comanda a sua bronca contra os policiais, pedindo que todos filmem. “Tem que filmar isso aí, absurdo!”. Não há como ver o que realmente aconteceu, mas, em segundos, tudo muda.

O povo, de novo, vai à loucura com a sequência da música e os policiais seguem em fila, com espaço sendo aberto de forma ordeira. Do alto, é possível notar que não há mais espaço pra nada entre os camarotes do Campo Grande e a porta do Teatro Castro Alves. O local vira um tapete humano e a música segue, com ritmo enlouquecido.

Ele manda tirar a camisa: tudo mundo tira, inclusive uma mulher que não se importa em mostrar os seios e ficar com a blusa enrolada na mão direita. Ele manda todos baixarem as mãos, todos baixam. Conta até três e manda pular e o povo, então, vai à loucura, pulando, cantando e sempre de olho no líder, lá no alto do trio.

Sem camisa, ele canta ao lado de Edy City, Chiclete da Bahia e da dupla Lucas e Orelha, convidados do trio, quando nota que um folião se arrisca sobre a cabine do caminhão, sem nenhum convite: “Para, para, para!”, ordena. Ninguém sabe quando e como o folião chegou até lá, conseguindo seguir por alguns metros do Campo Grande, dançando alucinadamente. “Você vai se machucar, maluco!”, grita Kannário. “Desce daí, logo ou chama a polícia”. O folião, um homem aparentando 30 anos, desce e o trio volta a tocar e a carreta segue, lentamente.

Depois de quase uma hora, Kannário vai deixando o Campo Grande em direção à Avenida Sete, em velocidade bem inferior à energia que emana para o povo e recebe de volta. Os seus comandados mostram impressionante fôlego, já no penúltimo dia de festa. É como se tivessem se preparado para o momento, que, de novo, fica marcado no carnaval da Bahia.

E, de novo, não há como deixar de reconhecer: Kannário reinou e deu a lição de como liderar a massa do gueto. O que ele chama de favela não são pessoas que moram apenas em morros, becos da pobreza ou pefireria da miséria onde o povo está acostumado ao sofrimento.

Favela é o carnaval popular, de quem brinca sem cordas, encara o suor do vizinho, o cheirinho do suvaco de cinco dias de festa com poucas idas ao chuveiro. Favela é o jeito baiano de ser e de brincar, de se jogar na avenida sem ecomomia de energia, pois sabe que o momento é raro para aparecer na TV.

Afinal, onde está o príncipe, sempre tem uma lente de olho. Ou sempre terá, em breve, da mesma forma como estão sempre apontadas para Ivete e as suas gêmeas.

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