Empresário que sofreu sequestro e extorsão volta ao cativeiro para contar a história do crime e acusa policiais

Envolvidos estão presos e o inquérito segue apurando mais detalhes sobre os crimes praticados

Marcas de tiros em vários pontos dos escombros da casa abandonada foram encontrados(Foto: Reprodução/Correio)

Uma vítima de sequestro e extorsão praticados por uma quadrilha que também tinha policiais militares, levou uma equipe de repórteres do Correio ao local onde ficou em cativeiro, sofrendo ameaças e torturas psicológicas, aqui em Salvador. De acordo com a reportagem, o empresário ficou por mais de uma hora na iminência de levar um tiro na nuca, caso não concordasse com as exigências do grupo que, segundo a vítima, tinha como ‘xerife’ Juraci Belo Santos, soldado reformado que está preso, e outro policial militar não identificado.

A prisão de Juraci, de acordo com a reportagem do jornalista Bruno Wendel, ocorreu por causa da descoberta de outro caso de sequestro e extorsão, que terminou com as mortes do agente penitenciário Andrew Trindade Vieira e o amigo dele, Marcos Gomes Vidal, há cerca de um ano e o o soldado Marcos Vinicius de Jesus Borges Ciriaco também é apontado como um dos assassinos.

Ciriaco estava em liberdade, mas respondendo por homicídio, quando foi, de novo, preso em julho deste ano, junto com outros três PMs e uma quinta pessoa, sob suspeita de extorquir, torturar e matar um casal dentro de uma casa no bairro de Placaford, em setembro de 2016. Em comum, segundo a reportagem, o grupo praticava a extorsão, mediante tortura psicológica, e pedidos de altas quantias em dinheiro – terminando, em alguns casos, com a morte dos ‘selecionados’.

Local servia de cativeiro e tortura durante os crimes de extorsão praticados pelo grupo, segundo a reportagem(Foto: Reprodução/Correio)

No caso desse empresário que acompanhou os repórteres até o local onde ficou em cativeiro, o que chamou a atenção de uma das vítimas foi a escolha de um local para a prática da tortura e, aparentemente, execução de sequestrados. “Fiquei apavorado com o que vi. A construção estava toda furada de balas e nos comentários deles, dava pra ver que não fui o único a ser lado para ali”, conta João, ao retornar no último dia 6 de setembro com o Correio à cena que jamais esquecerá. “Voltar aqui é como ter novamente a sensação de morte. Foi Deus que me livrou. Só tenho essa explicação para poder estar aqui e reviver isso”, revelou o empresário, que após dois anos, resolveu falar, a fim de evitar que a quadrilha volte a fazer novas vítimas.

Ele disse que reconheceu Juraci e mais um dos seis bandidos que o extorquiram: é Osmário Barbosa Damião, que já foi preso por roubo a confecção.

Morador de Cajazeiras, João era proprietário de uma frota de caçambas e guinchos na Av. Gal Costa. A quadrilha chegou a ele porque um dos suspeitos morava no mesmo bairro dele e, por isso, conhecia sua rotina.

O grupo montou um plano para o sequestro. Aproveitou que João anunciou a venda de um galpão e simulou interesse. “Eles ligaram pra mim e marcamos um ponto de encontro”, conta João. O empresário tinha no bolso da calça R$ 7,8 mil, recebidos naquele dia.

Os criminosos, segundo a reportagem, chegaram em dois carros por volta de 12h. O primeiro levava Osmário e um policial, e foi o veículo que abordou João no local onde ocorreria a negociação. O segundo carro, na retaguarda, trazia o restante do bando, entre eles o PM aposentado Juraci.

Osmário, que está preso, e o PM não identificado colocaram o empresário dentro de um dos carros e o levaram rumo ao casebre em Canabrava. Já os demais, seguiram para a casa dele, em Cajazeiras.

No trajeto até Canabrava, Osmário era quem conduzia o carro e parecia mais agitado. “Ele estava muito nervoso. A todo momento, ele dizia para o PM – que estava do meu lado, no banco de trás –, que eu não poderia sair vivo”, recorda.

Os bandidos faziam contato pelo celular e, pela conversa, João percebeu que os outros já estavam em sua casa. “Eles diziam que encontraram R$ 5,6 mil. Insistiam em mais, mas não tinha. Então, disse que poderia ligar para um amigo e fazer um empréstimo. Mas não quiseram. Insistiam que eu mentia, que ia morrer”, relatou.

Ainda no caminho para Canabrava, o PM que estava ao lado, com uma arma apontada para João, aproveitou o momento em que Osmário estava mais concentrado no percurso e pegou os R$ 7,8 mil que estavam em seu bolso. “Ele fez um sinal para eu ficar calado, senão me apagaria”, relata.

Duas horas depois o empresário foi libertado em Vale dos Lagos, e resolveu ir à Delegacia de Repressão a Furtos e Roubos de Veículos (DRFRV), para prestar queixa do roubo do carro, e logo depois fez uma denúncia contra os PMs na Corregedoria. “Um amigo me disse que estes policiais voltariam para me extorquir e, provavelmente, não teria a mesma sorte de sair vivo”, explica.

Na DRFRV, uma surpresa. O delegado lhe mostrou um álbum de fotos de criminosos e ele reconheceu Juraci Belo e Osmário, que já eram procurados. “O próprio delegado também me aconselhou a ir à Corregedoria e foi o que fiz”, contou João, que prestou queixa no mesmo dia.

Depois dessa ocorrência e dos registros, o empresário afirma que decidiu deixar o Brasil. “A minha decisão teve consequências. Tive que vender tudo o que tinha por bagatela”, comentou. Este ano, de férias, resolveu vir ao Brasil, para rever amigos, quando soube que um dos policiais que participou de seu sequestro estava envolvido em crimes mais recentes.

Na visita feita pelo Correio ao lado de João, à casa onde ocorreu a tortura, o portão estava escancarado, sem controle de acesso. No chão, dentro e fora do imóvel abandonado, três cartuchos de pistola 380 e ponto 40. Além disso, um saco com vestígios de sangue recente – indício de uma recorrente prática de tortura, com saco na cabeça.

Apesar de nenhum vigilante ter sido visto no local, a Secretaria da Cidade Sustentável (Secis), que administra o Parque Sócio-Ambiental de Canabrava, informou que o local é um parque urbano criado num extinto lixão e que tem um segurança em circulação. Ainda de acordo com a Secis, a construção abandonada é uma antiga estação de tratamento.

Os envolvidos

Depois de ter detalhes da história em mãos, a equipe buscou informações com a Polícia Militar que comentou a situação de cada um dos PMs suspeitos de crimes como sequestro, extorsão, tortura e assassinato. Segundo a assessoria da corporação, a Corregedoria da PM só poderá informar se os militares serão exonerados, ou não, ao término do processo disciplinar.

Sobre o PM aposentado Juraci Belo Santos, a assessoria informou que ele responde a um Processo Administrativo Disciplinar (PAD), por ter sido preso em flagrante praticando roubo. Contudo, o PAD está suspenso em razão de o acusado ter alegado insanidade mental. No último dia 8 de agosto, Juraci foi preso em cumprimento a mandado de prisão preventiva e será submetido a um novo PAD, que se encontra em fase de instauração, sob acusação de ter praticado crime de extorsão.

Já o soldado Marcos Ciriaco responde a outro PAD para apurar denúncia oferecida pelo Tribunal do Júri, por ter sido acusado de matar Rafael Ramos Santos, em 15 de fevereiro de 2013, no bairro de Nova Brasília. O PAD encontra-se em andamento.

A assessoria da Polícia Civil informou que o soldado Ciriaco também está envolvido, de acordo com investigações do Departamento de Repressão e Combate ao Crime Organizado (Draco), no sequestro relâmpago de Washington Lázaro Paganelli de Carvalho Júnior, ocorrido em 13 de outubro de 2016. Já no Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), o policial foi indiciado no inquérito do latrocínio do casal Renato e Nélida Habib, em Placaford. Sobre Juraci Belo, informou que ele é investigado apenas pela morte de Andrew e Vidal, sequestrados na Federação e mortos no CIA.

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