Da Pipa do Vovô ao Caralh* de Márcio Victor, as músicas mudam a história do carnaval

Já não há limites e o carnaval 2018 foi mais um exemplo disso: a criatividade dos compositores, passa pela ousadia aceita pelo público, não importa o nível.

No começo de 1899, Chiquinha Gonzaga pediu: “Ô abre alas que eu quero passar!”. Em 2018, ecoa a voz de Márcio Victor, com o “Eta Caralh*”. E todos perguntam: Chama quem? Chama quem consta, Chama no grave oss, como diz parte da letra de Pa Pa Pa, da banda La Fúria. Seguimos na pista e encontramos a inocente “Mamãe eu quero, mamãe eu quero, mamãe eu quero mamar! Me dá chupeta, me dá chupeta, me dá chupeta pro bebê não chorar!”.

Hoje em dia, fazer sucesso no carnaval não depende mais da qualidade da música e sim do que ela desperta no público. Se mostrar a “popa” da bunda for a solução para o sucesso, metade do short vira moda.

E assim sobrevive o carnaval do Brasil, em especial da Bahia. Se a marchinha do apresentador Sílvio Santos estivesse nas paradas, hoje, certamente não seria tocada nem em bailinhos infantis. Estaria entre as mais inocentes, apesar das contestações da época em que foi lançada – começo da década de 80. E isto, simplesmente, porque a letra revelava: “A pipa do vovô não sobe mais, a pipa do vovô não sobe mais!”. Os velhinhos da época se dividiram entre risos e protestos.

Hoje, até crianças se jogam na Popa da Bunda, muitas estão na onda de MC Loma e das Gêmeas Lacração, sentam e quicam devagar. Este sim, escândalo garantido para os padrões do próprio “patrão” do SBT na época. Mas hoje, com certeza, escândalo seria entra na avenida com ‘As Águas Vão Rolar’, ‘Cabeleira do Zezé’, ‘Cidade Maravilhosa.

Mas a história da música de carnaval com duplo sentido é bem antiga, ao contrário de quem condena essas “imoralidades” atuais. basta pesquisar, como fez um grupo de jornalistas, para encontrar essa verdadeira “joia” de 1920, com a seguinte letra:

Ainda hoje, com certeza, a execução dessa música deixaria muitos rostos “rosados”, ao contrário do “Ôôôô, Aurora… Veja só que bom que era… Ôôôô, Aurora”, marchinha criada numa Quarta feira de Cinzas por Mario Lago em 1941. A marchinha virou sucesso e ganhou popularidade logo no ano seguinte. Até hoje ela é lembrada nos carnavais de ruas de todo o Brasil.

O que impressiona é que sucessos bem mais recentes estão de fora da lista de execução dos cantores, pois foram incluídas na relação das consideradas “politicamente incorretas” para o momento de moralização social pelo qual passamos. Por isso, ninguém se atrave a executar “Nega do Cabelo Duro”, que dominou o Brasil na em meados da década de 1980, na voz de Luis Caldas.

Contraditoriamente, não há contestações para Rabetão no Paredão, que ainda consegue deixar rosadas algumas bochechas, quando é exibida em clipe de Duas Medidas e La Fúria. “Música boa só se ouvia nos anos 90, mas hoje em dia só se ouve bunda e caralh*”, reclama a estudante Rafaela Souza.

Assim como “Nega do Cabelo Duro”, hoje ninguém se atraveria a sair por aí gritando: “Olha a cabeleira do Zezé, será que ele é, será que ele é”. A composição de João Roberto Kelly, questionando a sexualidade de um garçom, está fora do momento chamado “politicamente correto”.

E o carnaval segue, embalado ao som do que tocar, não importa qual. O fim de qualquer avaliação leva à reflexão de que, para o grande público, importa que algo embale o dia, o momento, o empurre para estar ao lado do trio, para estar na avenida. Qualidade? É exigir muito. Tem que sensualizar.

O importante é gritar que “Cheguei pra te amar” e colocar dúvidas entre coroas e novinhas, com faz É O Tchan, enquanto Léo santana vai preferindo as novinhas. Mas os velhinhos não muito afoitos, seguem gritando: “Ei, você aí, me dá um dinheiro aí, me dá um dinheiro aí!”, da marchinha eternizada por Moacyr Franco da década de 1960. Essa história de letra que fale em simples beijos, sem descer até o chão, músicas que não sugiram ‘botar todinha”, estão, definitivamente, fora do contexto e fadadas ao insucesso.

“O importante é sensualizar”, diz Mônica Sales, nutricionista, que diz ter adorado as danças deste ano. “Eu tinha preconceito, antes, mas depois dos ensaios na academia, vi que a coreografia faz a diferença. Se é algo ousado, ou não, juro que nem presto atenção, pois aprendo a dançar e não a cantar”, completa Mônica.

Mas Gerônimo Coelho, taxista de 59 anos, alerta: “essa imoralidade tira o brilho da festa, na minha opinião. Tomei um susto quando estava empolgado com a passagem do Psirico e, de repente, ele sai com aquela história do eta caralh@”, diz.

E a festa segue, com músicas que evoluem. Evoluem?

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