Cenários ricos, informalidade pobre e distância do sotaque baiano compõem programas de TV na Bahia

Disputa pela audiência do horário de almoço parece distante da preocupação com qualidade em ponto importantes que a população exige: boa informação.

A riqueza de alguns cenários são um contraste com a forma como a qualidade de alguns programas do horário do almoço na TV

A queda da audiência nas emissoras de televisão de programação “aberta”, vem provocando muita preocupação e os programas jornalísticos são usados para buscar a preferência do público, especialmente na hora do almoço. Essa queda da audiência pode ter uma explicação: a falta de criatividade das pautas o que acaba deixando “tudo muito igual”, como relata um telespectador.

Essa redução da preferência do público pelos canais abertos, atinge, especialmente, à Rede Bahia, considerada a maior rede de notícias do estado, pela quantidade de empresas de comunicação que detém e pela abrangência das suas afiliadas, que, de acordo com o que informa, penetram nos 417 municípios da Bahia.

Ao contrário da afiliada da Globo na Bahia, a Itapoan/Record, através de um trabalho perfeito de marketing de alguns dos seus colaboradores, sempre faz postagens em redes sociais, garantindo que a audiência no jornalismo é crescente e que, constantemente, obtém o primeiro lugar nos programas matinais e do meio dia.

Mas independente de dados oficiais ou não, assistir o jornalismo praticado pelas emissoras ao meio dia é motivo de confusão para quem liga a TV. Seguindo a velha tese do velho Abelardo Barbosa, consagrado como o apresentador Chacrinha, “na TV, nada se cria, tudo se copia”, é o que se observa. Pautas de reportagens, acionamento dos repórteres e cenários, praticamente são iguais.

Nesse horário, a diferença no visual está no cenário da TV Aratu. E a emissora do galinho entra na disputa da audiência, não se conforma com o terceiro lugar e, ainda que seja considerada o “primo pobre” dessa disputa, compensa pela agilidade dos repórteres e da sua produção que aparenta estar muito “antenada” com os fatos que formam o perfil dos programas que tem no horário.

Nesse ponto, a perda é bem visível da afiliada da Globo, por mais que a emissora busque caminhos para aproximar-se de algumas comunidades. Os repórteres não parecem à vontade, as reportagens exibidas estão distantes do que o público clama, enquanto a concorrência vai sempre no cerne das coisas mais reclamadas.

Mas não há como negar que, ao longo dos últimos dois anos, a emissora conseguiu entrar em algumas pautas que se propunham levar o jornalismo a essas comunidades. O problema é o conteúdo e a forma de fazer as matérias. Ainda que haja esforço, nada parece ser espontâneo, como foi a série que falou sobre os “mitos” do gueto. Ou a que tentou mostrar a popularidade da banda La Fúria, com o passeio da equipe por algumas ruas do bairro da Liberdade, nesta sexta-feira(16).

No mesmo horário, correndo em busca do público que exige novidades e o que ocorre no horário, Aratu e Itapoan, duas concorrentes, mostraram o drama de uma cobradora de ônibus que sofreu um AVC quando se deslocava para o trabalho. Depois da TV Bahia ter mostrado um vídeo da manifestação ocorrida pela manhã em uma rua movimentada de Cajazeiras VIII, os repórteres dessas outras emissoras, ao vivo, já mostravam a ambulância, na porta do hospital, retirando a mulher de lá em direção a um hospital para onde foi regulada, como pediram os manifestantes.

Nas ruas, portanto, não há cenários que embelezam mas, por vezes, apenas escondem a falta de conteúdo pela ilusão ótica que provocam aos menos atentos. E conteúdo é bem aproveitado e enriquecido quando há conhecimento do assunto a ser abordado, como fez a repórter Mayra Portela, da Itapoan/Record, durante o programa Balanço Geral.

Após reportagem mostrando maus-tratos de uma mãe a um filho ainda bebê, o apresentador Zé Eduardo , no seu estilo de polemizar e popularizar os fatos, surpreendeu Maira que se mantinha séria e sóbria, com um pedido de avaliação sobre o que tinha ocorrido. Esse momento é muito raro no jornalismo, pois os apresentadores, normalmente, se lançam a comentar as matérias, ainda que não dominem por completo o assunto e acabem não entrando firmemente no contexto discutido.

Ainda que aparentando surpresa, Maira não hesitou e, durante cerca de dois minutos, falou sem ser interrompida, emitiu uma firme opinião e arrancou elogios do apresentador que, seguramente, notou o crescimento da audiência no horário.

Essa tendência do jornalismo comentado, na verdade tem sido um drama para algumas emissoras. O problema está sendo na capacidade dos apresentadores entenderem que emitir opinião requer o mínimo de conhecimento das coisas mais simples do dia a dia. Normalmente, ao fim das reportagens exibidas, o telespectador é surpreendido com frases do tipo: “Isso é um absurdo!”; “Tem que mudar, não é possível!”.

Levar o assunto para as ruas, também tem sido uma outra tendência dos telejornais que disputam os pontos do Ibope. Mas há estratégias que, definitivamente, deveriam estar fora de qualquer proposta de pauta, como foi o caso desta sexta-feira, quando a TV Bahia colocou, dentro do cemitério do Campo Santo, um repórter para informar sobre a chegada do corpo da professora de balé que morreu na tarde da quinta-feira(15), em acidente no bairro do Itaigara. Ele permaneceu no local até o fim do programa, mas o velório não foi mostrado.

A informalidade tem sido, também, a forma encontrada pelo jornalismo, antes muito sério e cheio de “gessos”, de aproximar as emissoras do grande público, mas há pecados sendo cometidos e que acabam “derrubando” algumas pretensões. Roupas leves, mulheres com braços e ombros à mostra, roupas mais apertadas com desenho do corpo, enquanto os homens abandonam, de vez, o uso da gravata e muitos, até do paletó.

Essas formas de vestir eram impossíveis de pensar até bem pouco tempo por causa dos padrões impostos pela TV. Da mesma forma, ainda é impossível aceitar um outro vício muito forte dentro dos estúdios de TV da Bahia: o jeito de falar e o sotaque cada dia mais “sulista”, o que, em alguns momentos, dá ideia de que estamos sintonizando programas apresentados no Rio ou São Paulo.

O velho, bom e tradicional sotaque baiano, com o nosso jeito de expressar as coisas de modo tão especial está desprezado. Parece mesmo uma discriminação e isso tem refletido, talvez, no fato da audiência ter sido reduzida quase pela metade ao longo dos anos, em programas como o Bahia Meio Dia.

Aliada ao crescimento e investimentos feitos pelas emissoras concorrentes, a população segue desprezando os que usam e abusam a cada dia do sotaque que soa muito estranho aos nosso ouvidos. Enquanto o “oxente” do Ronda ganha espaço na Aratu, seguimos ouvindo a troca do “s” pelo “x” na Globo daqui. Pior: pronunciado por jornalistas nascidos e criados na Bahia.

A queda de audiência no horário do meio dia pela igualdade do que apresentam e que atinge muito mais a Globo/Bahia, levou a um reestudo dos rumos de algumas empresas. A própria TV Bahia trocou o seu diretor de jornalismo, depois de quase 20 anos. E, segundo as informações dos bastidores da emissora, novas mudanças em outros setores do jornalismo vão ocorrer, com a substituição de editores, apresentadores e até de gerentes.

As trocas podem até fazer efeito, mas o público vai exigir muito mais: que os programas tenham mais pautas dos problemas do dia a dia, com linguagem fácil e sem a defesa de interesses de cada empresa.

Ainda que priorize assuntos positivos do Governo do Estado, a TVE não deixa de acompanhar assuntos factuais importantes.

A semana inteira a população de Salvador tentou acompanhar pelos seus programas favoritos do meio dia, detalhes sobre o Fórum social Mundial que está sendo realizado desde a terça-feira(13), em Salvador. Mas apenas a TV Educativa, no seu TV Revista teve a sensibilidade de mostrar ao público baiano, um dos eventos mais importantes do ano em nossa capital, com abordagens que não apresentaram nenhum tom político como temiam, certamente, as emissoras privadas que controlam a audiência do horário.

Quem tem otimismo de que o jogo da audiência pode mudar completamente, também aposta nas mudanças de nomes ou de comportamentos de quem vai ao vídeo com a grande responsabilidade de manter o hábito dos baianos de se informar na hora do almoço. Provavelmente, a partir de abril, novos rumos serão tomados, um sotaque bem baiano esteja no ar e, com isso, voltemos a ver o jornalismo das nossas TVs não apenas pelos cenários milionários e sim pelo conteúdo.

A propósito, a apresentadora Jéssica Senra deve estrear na TV Bahia no dia 2 de abril. Mas  a jornalista, ex-Itapoan/Record disse em vídeo pelos redes sociais, ela “ainda” não pode falar absolutamente nada. Mas quando sair desse compromisso do silêncio poderá mudar audiência e sotaque da nova emissora.

Jéssica Senra, nova contratada da TV Bahia, deve comandar o Bahia Meio Dia

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