“Baba” jurídico brasileiro substitui as emoções da Copa do Mundo no domingo

A paixão pelo futebol teve uma pausa neste domingo(8), com a folga na Copa da Rússia, mas o Brasil resolveu ser diferente do resto do mundo e promover uma disputa que, no entanto, está bem distante dos grandes clássicos, mas bem próxima dos tradicionais “babas” de beira de praia ou periferia, em que, quem manda é o dono da bola ou quem grita mais alto.

Mas o objetivo desse jogo, infelizmente, não é balançar as redes do adversário. O jogo da vez foi dentro de gabinetes, regido por redações jurídicas as mais complexas para uma torcida que, do lado de fora, continuou perplexa, sem compreender as razões das “bicudas”.

O jogo que insiste em não parar é o político e capaz de fazer a população inteira esquecer dos momentos de lazer com as famílias, como dita a cultura e a tradição dos brasileiros e ficar diante das informações que vazam, a todo instante pelas redes sociais, rádios, canais de tv e sites.

Ao determinar a soltura do ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva, um desembargador do TRF-4, de Porto Alegre, que cumpre plantão judicial no órgão, não imaginou estar mexendo em um verdadeiro “vespeiro”. De forma surpreendente, pela manhã ele atendeu ao pedido de políticos e a ordem foi dada aos policiais federais de Curitiba, onde Lula está preso desde abril passado.

As reações foram rápidas, como num contra-ataque em que um artilheiro que estava no banco de reservas entra em campo e, de longe, palpita sobre a legalidade do “lance” e da competência do “adversário”. Era Sérgio Moro, que, de férias da sua missão na Justiça Federal de Curitiba, avisou que o desembargador Rogério Favreto não poderia mandar Lula para casa.

Começava a guerra entre torcedores, em uma arquibancada virtual. Uma parte mais forte, mais organizada, vestida de vermelho, provocou a reação imediata de Rogério, que praticamente mandou Moro de volta pro banco e disse que o seu objetivo teria de ser cumprido.

Nesse “baba” jurídico, o VAR – ferramenta usada como grande novidade dos tempos modernos do futebol disputado na Copa da Rússia – sequer foi invocado. Afinal, as regras da nossa legislação permitem que cada um dê a interpretação que desejar aos fatos, sejam eles políticos, criminais, policiais, ou não.

Era preciso, no entanto, que um árbitro entrasse em campo e, quem apareceu foi um superior a Moro e a Favreto: o desembargador João Pedro Gebran Neto, presidente do TRF-4, que despachou parecer dizendo que Lula deveia permanecer preso. Nem esse “cartão amarelo’ acalmou o subordinado, que voltou a insistir e a determinar à Polícia Federal que cumprisse a sua ordem, abrindo a cela para que Lula fosse de volta pra casa.

O jogo prosseguiu, ainda sem um árbitro e com direito a interferência externa, distante das câmeras que não foram capazes de avaliar, com detalhes, como foram tomadas todas as decisões. Houve “pênaltis?”; alguém meteu a mão na bola? O carrinho de frente foi maldoso? E, afinal, a bola ultrapassou a linha?

A presidente do Supremo Tribunal Federal, Ministra Cármen Lúcia, em casa, de olho nos lances pela TV, com direito a replay, mas sem a chance de assistir ao VAR, ficou limitada a um recado para quem estava nesse campo enlameado: a justiça é impessoal e que os ritos do Poder Judiciário devem ser “respeitados”.

A síntese do que disse a presidente do que seria a “confederação” do judiciário brasileiro: ninguém pode fazer jogada individual, sair driblando e tentar chutar pro gol. O jogo tem que ser coletivo, ainda que em um terreno de periferia, com buracos, sem gramado.

Enquanto isso, Lula seguia na meta, debaixo da trave, ou seja, dentro da cela da PF, em Curitiba, não totalmente alheio aos acontecimentos, pois ele é um preso especial, cumprindo pena de 12,1 anos. Afinal, é ex-presidente, com prerrogativas que a nossa legislação não explica bem, mas é assim interpretada por quem participa do jogo.

E se o jogo vira um campo aberto pra todos e entra quem o dono da bola quer, que tal permitir mais gente nesse baba? Dois advogados resolveram se aventurar em busca do gol da consagração. Aquele tipo que busca fazer bonito para sair na melhor foto do jornal do dia seguinte.

Mas a culpa de tudo é da lei e nela, Arnaldo – o César Coelho – não dá palpite. Ainda que o gol seja de mão, vale. É baba, é pelada para quem assim entende.

Pra tenar botar ordem onde não existe esquema tático, pois em baba ganha quem chuta mais em gol, o presidente do Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4), Thompson Flores, derrubou a terceira decisão expedida pelo desembargador plantonista, no comecinho da noite do domingo, mas ninguém saiu de campo, ainda.

Até quando vai esse jogo: como nas melhores peladas da periferia, termina quando todo mundo cansar. Vamos à exaustão, ainda que seja da coerência e ainda que a decência esteja em disputa.

SEM COMENTÁRIOS

DEIXE UM COMENTÁRIO

*